Ocolega M. Orosco escreveu este texto, a partir do nosso papo de maluco de um dia de chuva, veja soh que legal…
Geração Expontânea
O dia amanheceu ensolarado. A luz entrou pela fresta da cortina, refletiu no espelho e …. direto no meu rosto. Virei para o lado, decidido a ignorar o calor que agora me aquecia a nuca, e tentei continuar dormindo. Provavelmente, por alguma terrível conspiração cósmica, o rádio-relógio despertou.
No rádio uma mulher se esgoela cantando uma música Gospel, efetivamente capaz de ressucitar os mortos…. provavelmente para fugirem dali, para conseguir paz em outro lugar. Suspiro e me lembro, a moça que limpa o apartamento tinha vindo no dia anterior e, como sempre, mudou a estação do rádio e aumentou o volume. Toda quarta-feira eu me arrependo de ter tirado o relógio da mesinha de cabeceira, do meu lado da cama, e ter posto na escrivaninha, do outro lado do quarto, para me impedir de desligá-lo no “automático” e perder a hora de levantar. Levanto, com aquela cara meio zumbi, meio morto-vivo, grunindo coisas incompreensíveis, que nem mesmo eu entendo, com uma coceira insana em algum lugar do meu corpo que eu não consigo localizar, descordenadamente coço tudo que as minhas mãos conseguem alcançar, na esperança e alcançar aquele impreciso lugar, e desligo o relógio.
Me viro e me dirijo para o banheiro. Do centro daquela confusão mental que me acomete toda manhã, uma voz se elevou dentro de mim: “muda a porra da estação ou você vai acordar com essa gritaria amanhã também!”. Avalio a minha vontade de urinar e, meio a contra-gosto, me arrasto de volta até o relógio.
- Merda! Pra que lado o som abaixa? Sempre me esqueço…
Giro o botão do volume, posiciono o seletor de estação na proximidade de estação razoavelmente segura, e religo o rádio. Como sempre, girei o botão de som, para o lado errado. Xingo, abaixo o som, e, mais desperto, consigo localizar a estação que gosto, e desligo o rádio. Sem dúvida…. o dia já começou.
Puxo a cortina e um sol radiante, invade o quarto. O céu de um azul claro e intenso sem uma única nuvem, anuncia um dia quente e sem chuva. Me volto na direção do banheiro, de passagem pela minha pasta, largada em cima da escrivaninha, tiro o guarda-chuva. O laptop já é peso suficiente para ser carregado, pra lá e pra cá.
O dia corria normal, banho, café, e metrô, a cada estação entrando mais e mais pessoas. Puxo a pasta para a frente do corpo. Já não preciso mais me preocupar em me segurar. Tem tanta gente dentro do vagão, que já é impossível se mexer. Próximo da estação que tenho que saltar, viro o corpo, me desencaixo do meu lugar, e sou empurrado pelo fluxo que sai do carro. Na gare da estação, paro e respiro, me sentindo satisfeito por ter espaço para fazer aquilo.
Caminho na direção do escritório, um desses prédios altos, a fachada com vidros fumê e concreto aparente. Uma seqüência de prédios muito parecidos e modernos, com entradas largas em granito. Todos muito parecidos… parecidos até demais para quem ainda tem problemas de sincronizar as idéias no meio daquela névoa que parece flutuar dentro da minha cabeça. Olho, de esguelha, para cada entrada, à medida que vou passando por elas. A cada entrada repito um movimento errático, com a intenção de entrar no prédio e retorno… ainda não é esse! Passo por mais uma entrada, repito o movimento, dessa vez parece ser a entrada correta. Imagens conhecidas confirmam que entrei no prédio certo. O porteiro mau-encarado, que me ignora e não responde ao meu cumprimento de bom-dia; mas corre, arreganhando os dentes num arremedo de sorriso, para segurar a porta do elevador para uma morena provida, até em excesso, de carnes. Sou um homem metódico… no dia que o porteiro me desejar bom-dia, me viro e saio do prédio….. com certeza entrei no errado.
Sento à minha mesa, ligo o computador e uma enxurrada de e-mails corporativos invadem a tela: re-certificação do curso de segurança corporativa, re-certificação do curso de etiqueta corporativa, re-certificação do curso….. todos eles são anuais, mas posso jurar que todo dia aparece uma mensagem sobre uma re-certificação diferente, mas tão igual à do dia anterior que fica difícil determinar com certeza quais as que eu já fiz ou não. Mas não tem problema, o banco de dados corporativo cuida disso e só me manda fazer os cursos devidos, embora, algumas vezes, eu sinta aquele vago sentimento de estar fazendo os mesmos cursos várias vezes, todos os dias pelo menos um!
O vidro fumê, com cortinas, associado com luz fria e correta, na intensidade certa, do interior do escritório, faz o tempo estancar. Aqui as horas sempre são iguais, sempre a mesma luz, a mesma congelante temperatura e o burburinho constante das pessoas conversando sobre as coisas do dia-a-dia do trabalho e da vida. O dia segue, as horas vão passando, e um som grave, como um estrondo, me arranca das entranhas das entranhas terríveis daquele mundo multicolorido da tela do meu computador e me joga de volta à minha cadeira, à minha baia, perdida no meio de tantas outras no escritório.
Empurro a cadeira. Olho na direção das janelas. A luz que filtra pelos pequenos buracos da cortina não parece muito radiante. Já é quase hora do almoço. Levanto, caminho até a janela, abro algumas folhas da persiana e olho para cima, procurando visualizar, através do vidro fumê, uma nesga de céu. Sintomaticamente, o que deveria ser a nesga de céu, se parecia com a continuação do vidro fumê. Minto! Uma parte mais escura do vidro fumê.
Outro estrondo. Me vejo, como num filme em câmera lenta, abrindo a pasta, pela manhã, e retirando de dentro dela o guarda-chuva, o sol inundando o quarto, o céu limpo e azul! Abro e levanto a persiana, fico ali parado meio desconsolado, esperando a chuva cair.
Athanazio pára ao meu lado e também observa o movimento na rua, enquanto a chuva começa. Apesar de todo vidro fumê e altura, conseguimos ouvir distintamente os camelôs apregoando seus guarda-chuvas:
- familhão é dez, familhão é dez.
Outra voz replica a primeira:
- automático é cinco, automático é cinco.
Com o nariz quase colado no vidro, sem me virar, falo pro Athanazio:
- Impressionante esses caras.
- é…
- tenho a teoria de que eles vem embutidos nos pingos de chuva. Caiu o primeiro pingo já aparece um gritando: “familhão é dez!”, continuando a chuva começam a aparecer os outros gritando: “automático é cinco”!
- besteira! Na realidade eles ficam desidratados, entranhados no calçamento da rua. Começa a chover eles se reidratam e já começam a gritar. O processo é bem rápido, dá até a impressão de que eles vem embutidos nas gotas de chuvas…… mas é uma ilusão!
- será?
- tenho certeza!
- não sei.
- então como é que eles somem quando o sol aparece?
- é…. não tinha pensado nisso!
- ‘tô te falando…. eles se desidratam novamente e ficam ali no calçamento, esperando a próxima chuva. Os que gritam: “familhão é dez” são os que se hidratam e se desidratam mais rápido. Os dos “automático é cinco” demoram um pouco mais a aparecer, mas também demoram mais a desaparecer. Se o chão fica úmido, eles ficam zanzando por aí.
- hummmm!
- se não fosse assim….. eles continuariam a aparecer indefinidamente enquanto a chuva caísse. Imagina se cai um temporal, não ia sobrar espaço pra mais ninguém andar na rua!
- vai ver eles flutuam no ar e são trazidos pelas primeiras gotas de chuva, e só tem aqueles. Por isso eles param de aparecer depois de um certo tempo de chuva.
- hummmm!
- mas concordo com você! Eles se hidratam e reidratam.
- outro dia eu cuspi no chão e já surgiu um gritando: “familhão é dez”, mas desapareceu rapidinho…. afinal….. não estava chovendo e ele se desidratou rapidinho.
Ficamos ali, com nossos narizes quase encostados no vidro. Foi uma pancada de chuva rápida. O sol parece que acordou do seu cochilo e reclama exclusividade no firmamento, expulsando as nuvens.
- familhão é dez! Familhão é dez!
- automático é cinco! Automático é cinco!
- ‘tá esquentando…. – falou Athanazio.
- é …. eles já estão sumindo
- automático é cinco! Automático é cinco!
- agora vão começar a surgir os outros.
- é…. mas precisa esquentar mais um pouco.
Exáticos, observamos a rua com o olhar perscrutrador de um cientista, acompanhando o desenrolar do seu experimento.
- ômidiferro dubrado! Ispidireici, é o novo!
- já apareceu o primeiro!
- é…..
- automático é cinco!
- esses são uma típica aplicação de energia solar!
- hummmm!
- quando o sol sai eles brotam e começam a gritar.
- ahhhh! Então você acha que esses também ficam entranhados no calçamento da rua?
- claro! Só que são de uma espécie totalmente diferente….. precisam de sol para aparecer. Apesar de serem mais persistentes, tem uma vida mais curta.
- como assim?
- você nunca reparou?
- o que?
- aquele ali está oferecendo os DVDs piratas do Homem –de-ferro e do Speed Racer! Daqui há pouco vai surgir um gritando: “Indiana Jones, eu tenho”!
- Indiana Jones, eu tenho!
- olha lá, já apareceu o primeiro!
- pois é! Depois de algum tempo eles somem e aparecem outros. Da mesma família, é óbvio, mas estão sempre variando o que eles gritam. Os dos guarda-chuvas são mais duradouros….. são sempre os mesmos….
- “familhão é dez” e “automático é cinco”….. talvez essa temporalidade deles explique essa dificuldade de falarem direito os nomes dos filmes.
- é…. eles não tem tempo de aprender a articular corretamente os títulos.
- hummmm!
- vamos almoçar?
- vamos…. não esquece de fechar a cortina!
