Quando pensamos em “não se enervar”, o primeiro pensamento que vem a mente é o de impossibilidade, contudo podemos explorar o lema, que primeiro de tudo precisa ser visto como uma trilha e não um trilho, precisa ser visto como direção de vida e não uma determinação tirânica, que a sua desobediência desacareta a abertura de portais infernais de onde criaturas pavorosas saem e tomam conta da sua desobediente mente. Não os lemas não são trilhos, são trilhas.
Antes de avançar as minhas percepções sobre o assunto, acho importante a definição do que vem a ser “enervar”, em algumas definições do dicionário pode-se encontrar enfraquecer, mas pelo senso de todos os outros lemas sou levado a crer que um sinônimo adequado seria “irritar”, permitindo assim parafrasear o lema como : não se irrite … Apesar da referência mental que alguns de nós tem desta frase, se referindo ao personagem de programa televisivo Chaves, trata-se de uma percepção absolutamente razoável entender não se enervar como não se irrite.
Pois bem compreender a natureza do não se enerve, é um tanto quanto simples, trata-se de não se aborrecer, não se irritar, não se enervar … mas o passo complexo em minha opinão é discutir o “como” tornar isto realidade em nosso cotidiano.
Vejo que a irritação envolve dois elementos : nossa expectativae o agente irritante. podendo ser o agente a ausência de algo, ou a abundância, ou simplemente a existência, veja alguns exemplos :
- fila de banco
- mosquito na hora de dormir
- musica alta do vizinho
- atendimento demorado em um restaurante
- nossa incapacidade em realizar determina técnica de aikido
Todos os agentes irritantes citados acima só são irritantes porque existe uma expectativa correspondente em nós, só para citar alguns exemplos tem gente que adora fila de banco, porque eh uma excelente oportunidade para dialogar, falar de qualquer coisa, falar por falar sem ter um objetivo especifico. Mosquito, bem mosquito não sei quem gosta além das aranhas, mas talvez entender como oportunidade de aperfeicoar a concentração fosse uma boa idéia. E assim por diante podemos enxergar os irritantes de forma diferente.
Existem algumas opiniões que indicam que a razão do sofrimento humano vem do fato das expectativas existirem, ou seja a existência dos desejos é que gera o sofrimento, não deixa de ter razão este segmento de pensamento, contudo em minha opinião a forma de lidar com os desejos não deve ser a remoção dos mesmos, pois isto pouco a pouco iria remover nossa identidade, ao invés de nos tornar mais fortes. Penso que os desejos estão e estaram conosco, existem os que preferem o silêncio, e aqueles que preferem o barulho, mas o fato de preferir o barulho não que dizer que ao estar em um ambiente onde reine o silêncio preciso deixar de desejar o barulho, mas pode indicar por exemplo uma possibilidade de refletir sobre a viabilidade do meu desejo.
refletir sobre a viabilidade do desejo nos leva a encarar de frente o agente irritante, e refletir o quanto é importante o agente para nós e se a nossa irritação mudará de alguma forma o cenário em que estamos inseridos. relfetir sobre o fato nos fará perceber que a nossa irritação não irá alterar positivamente o cenário, somente irá piorar pois estaremos mais sensíveis a irritação, e como nossas mentes aprisionadas pela agente irritante, incapazes de agir para mudar o cenário que nos transtorna, ou ainda incapazes de enfrentar o cenário inevitável com serenidade necessária.
No livro de provérbios de Salomão, algumas citações me chamam atenção no que se refere a ira que podemos entender como aborrecimento ou ainda como enervar-se:
(30.33) Porque o mexer do leite produz manteiga, o espremer do nariz produz sangue; assim o forçar da ira produz contenda.
(12.16) A ira do insensato se conhece no mesmo dia, mas o prudente encobre a afronta.
(19.11) A prudência do homem faz reter a sua ira, e é glória sua o passar por cima da transgressão.
Este é o homem prudente o que passa por cima da transgressão, o ainda que em favor de si mesmo e dos outros não abandona seus desejos, mas recebe o dano de suas expectativas em favor dos outros e de si mesmo, oferece o dano às suas expectativas em favor de um bom relacionamento consigo mesmo e com os outros, este é o indivíduo que não se enerva, e que como Cristo sofre em favor dos outros, conforme Paulo escreveu em sua carta a igreja em Filipos no capítulo 2 (epistola aos Felipenses)
(4) não olhe cada um somente para o que é seu, mas cada qual também para o que é dos outros. (5) Tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, (6) o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, (7) mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; (8) e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.
